9 de novembro de 2009

Uma razão para viver

Para os rudes árabes anteriores a Maomé, o que lhes valia era o camelo. Não possuíam casas onde morar, mais de 85% da população levava vida nômade, beduínos a serpentear pelo deserto, estacionando à noite no frescor dos oásis, sussurrando à luz das fogueiras, dormindo sob barracas.

As caravanas deslocavam-se pelas dunas no ritmo ondulante do camelo, que alcança um máximo de 13 quilômetros por hora. Mas a vantagem deste meio de transporte não é mesmo a velocidade; é a autonomia. No verão tórrido da península, um camelo caminha durante cinco dias sem beber água. No inverno, suporta impávido quase um mês sem reabastecimento.

A utilidade do camelo ia mais além. Os beduínos bebiam-lhe o leite da fêmea e sua urina era usada como tônico capilar. As mães zelosas penteavam os cabelos dos filhos com urina de camelo, e os cabelos restavam lustrosos e macios. Se você quer ter melenas de propaganda de xampu, já sabe: procure o camelo mais próximo (serve também o dromedário) e faça com que ele urine sobre sua cabeça. Talvez você não fique muito cheiroso, mas ficará lindo.

O camelo era bem aproveitado até depois de morto. Sua carne macia assavam-na em churrascos suculentos ou a refogavam em cozidos de panela de ferro. E de seu couro os árabes confeccionavam as sandálias que afundariam na areia, as túnicas que os protegeriam do sol do deserto, as tendas sob as quais amariam suas mulheres nas noites estreladas das Arábias.

Como homens de existência tão rústica conseguiram dominar metade do mundo, como dominaram a partir do século 7?

Eis a questão.

O agente dessa transformação foi Maomé, o Profeta, embora dele também não se pudesse dizer que fosse um homem de origem sofisticada. Ao morrer, seu pai, Abdala, havia lhe deixado apenas cinco camelos, algumas cabras, uma casa e uma escrava.

Maomé era um homem de prazeres simples. Antes de ser chamado de “O Profeta”, chamavam-no de “O Sincero”. Casou-se com uma mulher 15 anos mais velha, Khadija, e enquanto ela viveu foi-lhe fiel. Uma monogamia de 26 anos em uma cultura em que a poligamia masculina é aceita.

Maomé era analfabeto. Mas essa deficiência foi corrigida rapidamente, num episódio que o próprio Profeta narrou, e que é muito interessante:

“Enquanto estava dormindo, coberto por uma colcha de brocado de seda em que havia algumas palavras escritas, o arcanjo Gabriel me apareceu e disse:

- Leia!

Repliquei:

- Não sei ler.

Ele me apertou com a colcha tão fortemente que pensei que fosse morrer. A seguir, soltou-me e disse de novo:

- Leia!

Então, li em voz alta e ele se foi, finalmente.

Acordei do meu sono e era como se aquelas palavras estivessem escritas no meu coração”.

Ou seja: Maomé não precisou de professores ou cursinhos. O próprio Senhor se encarregou de instruí-lo. O que, aliás, não era novidade. Os apóstolos de Jesus, eles também iletrados, haviam sido lambidos pela língua do Espírito Santo, sete séculos antes, e assim se tornaram poliglotas, facilitando a divulgação da Boa Nova.

Finalmente municiado com o dom da palavra, Maomé dirigiu-se ao seu povo, mobilizou-o e o levou a conquistar um naco do mundo. E de novo vem a questão: como ele conseguiu tal façanha? Por ter lhes dado, aos árabes, uma razão para viver e lutar. É o que move os homens. Um beduíno que vaga pelo deserto sem fé nem ideal apenas sobrevive a cada dia. Não tem nada, não vê à sua volta nada que possa cobiçar. Logo, não tem pelo que lutar. Um beduíno que só possui o seu camelo pode ser mobilizado pela fé. Pode dominar o mundo, se achar que esta é a vontade de Deus. Somente precisa de um desafio: uma razão para viver é o que dá o poder.

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